"Man is an invention of recent date.And one perhaps nearing its end" -Foucault

domingo, 12 de junho de 2011

Algumas considerações sobre o Projeto Morar Carioca no Morro da Providência

Texto e fotos por Thayná Coimbra

Sexta-feira dia 10 de junho de 2011, a quadra da Providência recebia os convidados do Fórum UPP Social. Representantes de ONGs, Secretarias do Estado e do Município, moradores, capitães de UPP, lideranças comunitárias.A experiência é bem interessante, e com o Fórum é possível criar um canal de diálogo entre Poder Público e Comunidade, onde todos podem falar, mas também ouvir. 

Porto do Rio visto da Providência
                    

 "A Comunidade do Morro da Providência, que fica no bairro da Gamboa, Zona Portuária do Rio, é a mais antiga favela da cidade do Rio de Janeiro. A ocupação deflagrou-se entre o final do século XIX e o início do XX, a partir da grande reforma urbana imposta pelo engenheiro Pereira Passos, quando vários cortiços e habitações populares do centro foram devastados e a população pobre, transferida para os morros nas adjacências do centro.No fim do ano de 1910, o morro da Favela era considerado o lugar mais violento do Rio de Janeiro. O morro, vizinho aos morros da Pedra Lisa, da Conceição, do Pinto, de São Bento e de São Diogo, já foi conhecido por vários outros nomes. (...) Os ex-combatentes de Canudos, então, se instalaram na encosta do morro, que fica atrás do prédio que abrigava o Ministério da Guerra. Os casebres amontoados e os becos estreitos se assemelhavam ao Arraial de Canudos. No oratório erguido no alto do morro os soldados puseram a imagem de Cristo que pertencera a Antônio Conselheiro. Identificando-se mais com os inimigos do que com seus comandantes, os soldados também passaram a chamar o novo arraial de Morro da Favela, fazendo assim uma analogia com os morros que circundavam Canudos e que eram repletos de árvores espinhentas, conhecidas no nordeste pelo nome de “favelas”. - Sabren
                               

É evidente a força e o simbolismo histórico na atmosfera da Providência- favela que tem vista para o mar, e para o velho e abandonado Porto do Rio. Além disso foi urbanizada pelo Programa Favela Bairro e conta com uma Unidade de Polícia Pacificadora. Atualmente, a Secretaria de Habitação do Município do Rio está implantando em diversas comunidades o Programa Morar Carioca, uma espécie de continuidade do Favela Bairro, que além de urbanizar pretende conservar o espaço público. O projeto é polêmico na comunidade pois terá que retirar famílias que não estão em áreas de risco para que por exemplo, um 'plano inclinado' e um Teleférico sejam implementados. Com a falta de informação e diálogo do poder público com a comunidade, a desconfiança, o medo e o descontentamento  de imaginar a possibilidade de não morar mais no Morro, está deixando a situação delicada. Para piorar, segundo alguns moradores, a SMH marcou com uma pintura na parede, as casas que serão removidas sem aviso prévio.  
Essa tensão pode ser percebida no Fórum UPP Social da Providência, e repito- canal de extrema importância para o exercício do diálogo entre poder público e comunidade- já que o secretário de Habitação Bittar, estava presente. Com a palavra, a líder comunitária da Providência, e na sequência os Secretários Bittar e Ricardo Henriques:



Rosiete: -Nós somos nascidos e criados aqui, temos uma história. Hoje nós estamos tendo as nossas casas marcadas pela SMH para serem removidas. Pergunta que faço ao secretário Bittar: que dia e que hora marcada para a comunidade estar presente para o senhor mostrar a realidade desse projeto??? Quem é que vai sair quem é que vai ficar??? Queremos ser ouvidos. Todas as vezes que vocês vieram vocês fazem reunião com secretarias mas não com a comunidade.


Bittar: -Todos os moradores que quiserem ficar na Providência ficarão na Providência. Serão no total cerca de Mil Unidades Habitacionais para que as pessoas possam viver melhor do que vivem hoje. Aqueles que tem dúvidas, estou aqui exatamente para isso. Vamos prestar esclarecimentos sobre cada projeto dessa obra do morar carioca. Tomem cuidado pois há muita mentira sendo espalhada no que se refere às casas.


Rosiete: -Nossas casas foram marcadas e falta informação. Estamos olhando todos vocês que estão aqui e são de fora com maus olhos. Vocês são os invasores das nossas casas. Se eu me mudar daqui vou ter que levar meu filho. Será que vou conseguir uma escola boa pra ele?E mais, são varias casas numeradas. Será que pra onde o povo vai terá escola pra todas as crianças? Qual é a certeza que temos? Nenhuma. Todo esse lado da rua da grota,as pessoas que serão retiradas vão pra onde? Vai fazer alargamento da rua pro Projeto Morar Carioca, vai apertar pra onde essas casas? Abre essa rua, tira a família mas coloca a família do mesmo lado; Não vejam só a nossa vista, vejam que tem vida aqui. Se tirar esses moradores? Não podemos apagar nossa história. Cabo eleitoral é política. Hoje vocês estão aqui e amanhã podem não estar mas a favela tem que continuar. A primeira favela do Rio. É um século e meio de história. Nós não somos apenas moradores, somos criados nessa favela. Precisamos de urbanização de luz de esgoto de tudo isso mas nos deixem viver onde precisamos morar e trabalhar.E agora? A rua Nabuco de Freitas quando alaga, é horrível, e é pra lá que querem levar a gente. Serão construídos vários prédios sim, mas para a classe média. Pra que tanta mudança? Antes o Plano Inclinado ia ser desse lado aqui, aí marcou a casa de todo mundo e agora mudou,é do outro lado da rua, aí marca a casa de todo mundo de novo. Bota a cabeça pra funcionar! Não tá em área de risco, deixa a casa do povo lá. Deixa o povo viver na sua casa. Eu quero ver onde vão arrumar em 10 dias uma casa pra morar. Vamos pensar, temos que ser coerentes. Traga esse Projeto (Morar Carioca) pro povo e dê oportunidade do povo dizer não. Ou dizer sim. Somos favelados sim, mas temos direito a dar opinião!



Ricardo Henriques: -É isso que estamos construindo!É isso que a UPP Social está construindo! Diálogo e informações entre poder público e moradores. Queremos trocas permanentes. Sem mentiras que estão sendo ditas no dia-a dia sobre o projeto Morar Carioca; Para que possamos dialogar sobre o Projeto e sobre outras demandas dos moradores. Mas, meu compromisso aqui organizando a UPP Social não é puxar uma reunião específica sobre o Morar Carioca. Temos muitas outras agendas. Vamos continuar comunicando para chamar para reuniões específicas.Reunião sobre Morar Carioca marcada para o dia 18!  Esse momento é único. Estamos respeitando a força e a imagem e o simbólico da Providência e aumentando a qualidade de vida da comunidade. 

Escadaria onde muitas casas foram marcadas- serão removidas
para construção do Plano Inclinado e do Teleférico

A comunidade precisa de urbanização, saneamento, coleta diária de lixo e moradias dignas. Esse é o cenário que conhecemos ao longo de mais de um século. O que pude perceber nos anseios dos moradores,é que possam também fazer parte do diálogo de construção da cidade. A informação é extremamente importante nesse momento, e é inadmissível que o Projeto Morar Carioca seja implantado de cima para baixo, sem escutar a comunidade. Se a reunião está marcada com os Moradores e a Secretaria, espero que a comunidade esteja presente e se faça sim ser ouvida.  O exercício da democracia é este, construir com diálogos e debates no dia-a-dia o que queremos para nossa sociedade. Se o debate não for democrático, o projeto perde legitimidade e consequentemente toda a cidade sofre-embora, evidentemente, quem mais sofra esteja à léguas de distância de fazer parte da "cidade formal", com todas as relevâncias reais que esta expressão possa sugerir, desde a falta de moradia adequada ao processo de estigmatização e exclusão que o morador de favela sofre. Ficamos portanto com um paradoxo, que já foi apontado antes por Perlman, onde os pobre urbanos são integrados em todos os níveis da sociedade brasileira, embora marginalizados e não marginais, excluídos e não apáticos, explorados e não parasitários. 
O que evidentemente não queremos para nossa cidade é a perpetuação da desigualdade- problema crônico que atravessa todo um País. É esperar para ver o que vai acontecer...embora mais do que isso, não apenas esperar, mas intervir e participar do processo de diálogo e construção de uma sociedade cada dia mais democrática, e da difícil tarefa Lefebvriana de trazer para o planejamento urbano a pauta do Direito à Cidade, possibilitando a construção, enfim, de uma cidade para todos.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Cidades voltadas para as pessoas, e não apenas para os carros

‎"São Paulo: 11 milhões de pessoas, quase 6 milhões de automóveis; um acidente a cada 3 minutos; uma pessoa morta a cada 6 horas; 8 vítimas fatais da poluição por dia. No lugar da praça, o shopping center; no lugar da calçada, a avenida; no lugar do parque, o estacionamento; em vez de vozes, motores e buzinas. Trabalhar para dirigir, dirigir para trabalhar: compre um carro, liberte-se do transporte público ruim. Aquilo que é público é de ninguém, ou daqueles que não podem pagar. Vidros escuros e fechados evitam o contato humano. Tédio, raiva angústia e solidão na cidade que não pode parar, mas não consegue sair do lugar."


Esse texto dita o tom do interessante e muito informativo documentário"Sociedade do Automóvel" disponível no Youtube Cidades inteiras paradas, mas quem está dentro de um ônibus em um engarrafamento gostaria de estar em um carro.Só não tem carro quem não pode ter. Já pensou se todas as pessoas que utilizam o precário transporte público brasileiro comprassem um carro? Incentivos através do lobby do petróleo e das grandes empresas que produzem carros não faltam para que todos comprem um- O que vemos são soluções individuais para problemas coletivos.


L.A: Procurei e só consegui ver UM transporte coletivo (branco) no meio da foto,
todo o resto mostra transportes individuais (carros).

O espaço público da cidade é o local por excelência da prática da sociabilidade. Em praças, calçadas e parques podemos caminhar e sentir a atmosfera da cidade, encontrar amigos. Os caminhos definem o espaço-percebemos e interagimos em diferentes situações ao andar a pé ou de bicicleta. Pensar em Planejamento urbano e mobilidade sustentável me faz crer que é urgente tornar as cidades mais acessíveis e universais. Ao desenvolver Políticas Públicas que eliminem barreiras de exclusão social de qualquer tipo, criamos cidades acessíveis para todos: Idosos, Portadores de Deficiência, Gestantes, Obesos, Crianças e todo tipo de Gente Diferenciada

Por que não podemos aumentar nossas calçadas, criar ciclovias que interliguem toda a cidade, e no lugar de estacionamentos, construir parques? 

Beijing: Pedestre/Ciclista refém dos carros

No delicioso documentário sobre optar pela bicicleta como um modo de vida, vemos que a solução para os problemas causados pelo carro deu -e muito- certo na Holanda, Colômbia e Dinamarca. Cycling Friendly Cities  mostra em poucos minutos, a criação de cidades voltadas para as pessoas, e não para os carros. 

Amsterdam: Ciclistas e Pedestres são prioridade


Na Holanda, crianças aprendem na escola em apenas 3 semanas, como lidar com diversas situações ao utilizar a bicicleta como meio de transporte. Vemos ainda que é possível não incentivar o uso de carros com simples práticas: Aumentar o preço dos estacionamentos; aumentar o preço dos combustíveis; investir em tecnologia moderna e transporte público de qualidade; criar ciclovias inteligentes e seguras; Diminuir a velocidade permitida para o carro trafegar. 
É possível subverter culturalmente nossa sociedade 'planejada' para poucos com Políticas Públicas e Projetos pensados e discutidos coletivamente. É dever do arquiteto, do urbanista e do gestor público que planeja a cidade para todos, elaborar e desenvolver projetos e políticas universais, que promovam qualidade de vida, acessibilidade e mobilidade para todos.